Tomar um vinho pode relaxar essa vontade de dar um trato, me vem na cabeça aquela luz clara, mas suave, de 2:00 da tarde, sentindo a cama massagear e de molho em creme.
Se eu soubesse que hoje estaria tão fresco teria sugerido de irmos no parque. É tão bom quando o sol está à vista, mas fraco, estirar um lençol bem grande e ficar deitado vendo o dia passar.
Acho que preciso mesmo ver o dia passar.
Quando a gente deixa de ver o dia passar, mudamos nossos hábitos, essas semanas fico esperando ansiosamente que chegue sexta-feira para poder ver o dia passar, aí eu lembro que não posso e acabo vendo outras coisas.
Só ontem fui perceber que meu pai tinha podado o pé de acerola, odeio quando ele corta os galhos mais grossos, ele não tem noção nenhuma de paisagismo quando faz esse tipo de coisa. Do jeito que ele cortou a planta só vai crescer de um lado e vai ficar esquisita. O Rachide concordou comigo, ele sempre me acompanha quando eu tiro um tempo para ver o dia passar, é uma companhia mútua, concordada. Acho que ele está sentido falta desses momentos, a cada dia que passa ele fica mais ansioso quando eu chego em casa à noite. Essa semana eu chorei de dó dele.
Tenho que lembrar de ter um bichinho de estimação na minha casa só se eu tiver tempo pra dar atenção a ele.
Estou triste também, porque não lembro mais de todas as coisas que eu quero fazer, perder esse desejo me preocupa muito. Estou deixando as coisas passarem, não estou reagindo a estímulos.
Mas não interessa, as coisas devem ser feitas da maneira certa.
Tenho medo de transformar minha vida numa mentira.
Queria me decidir logo se as coisas estão ruins ou boas, é terrível essa oscilação de humor que a gente passa, eu fico desorientada. Fico triste, fico feliz. Não quero que meu estado de espírito seja definido pelo que ocorre no meu dia ou por qualquer outro motivo, quero que ele seja fixo e mantido por mim mesma.
Nossa, já são 10 horas, preciso arrumar o cabelo ainda.
Acabou que eu nem vi o tempo passar.

