quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Bando de Loucos

"Aquela pancada doeu bastante", pensou Rafa quando acordou e lembrou que bateu a cabeça numa árvore do parque central enquanto corria atras da sua pipa. Levantava ainda meio tonta e decidiu que aquela pipa já era, e que iria comprar uma outra na entrada do parque. Foi caminhando, o parque estava um pouco diferente, as pessoas estavam com roupas diferentes e havia mais piqueniques em família do que o normal. Também havia mais cachorros que o normal e, perto do lago, jovens cantavam em uma dança que lembrava as tradicionais quadrilhas holandesas. Pareciam todos muito felizes.
Quando chegou na entrada do parque, procurou com os olhos o pivete que vendia os papagaios. Estranhamente ele não se encontrava no lugar de sempre, mas perto dali avistou um senhor rodeado de crianças com pipas, "deve ser outro vendedor", pensou.
Se aproximou dele e perguntou, já enfiando a mão no bolso fundo na jardineira dos eu vestidinho florido:
_ Quanto é?
_ O que?
_ O papagaio.
_ Não entendi, garotinha.
Estranho era a expressão de profunda dúvida que o senhor fazia, ele não estava tirando um sarro dela ou algo assim, mas Rafa insistiu:
_ Olha, eu tenho 1 real, pois o troco é para a volta do ônibus, então você pode fazer a 1 real pra mim? Por favor?
Foi entregando o dinheiro para o senhor que permanecia com a mesma expressão de antes da fala.
_ Queridinha, o que é esse pedaço de papel que você está me dando? É um papagaio que você quer? Tome um, pode ser o rosa?
Ela pegou o papagaio, sem entender aquele velho, que com certeza estava caduco.
_ E tome também esse desenho estranho.
Rafa achou aquilo engraçado, o homem era realmente louco. Resolveu que levaria seu presente para casa, o parque não tinha mais graça naquela hora.
O ônibus parou com o seu sinal, e ao entrar nele Rafa percebeu que este não tinha catraca, nem trocador, ficou esperando um pouco na porta sem saber o que fazer, pra onde ir. Até que o motorista, achando graça, interrompeu seu profundo estado de confusão.
_ Ei, menina. Você tem timidez com estranhos? Hahaha! Que bobagem, vá e sente-se em algum banco, não fique em pé aí igual boba.
Ela deu uma risadinha para ser simpática, mas ainda sim sem entender, sentou-se e foi pensando. "Ah, deve ser igual os suplementares que o motorista recolhe a passagem na saída". Satisfeita com a sua constatação, continuou a viagem apenas observando a rua.
Ela se sentia diferente, a cidade estava estranha, parecia que faltava alguma coisa, estava incompleta, como se algo realmente tivesse mudado.
Um rapaz pediu licença e sentou-se do seu lado, já conversando:
_ Licença, oh, que belo vestidinho você tem, onde conseguiu? Arrumarei um para a minha noiva.
_ Ah, eu comprei numa lojinha do primeiro andar no shopping, mas não me lembro o nome.
_ Comprei?
_ É.
_ Desculpa, mas não entendi. O que é comprei?
_ Hã? Como assim? Comprei, do verbo comprar.
_ Não conhecia este verbo, que menina mais culta! É algo relacionado a costura ou alguma técnica?
Por sorte o ponto de Rafa estava chegando, ela evitou o assunto e pediu licença para descer. Procurou a cordinha do sinal e não tinha, muito menos os botões com a mesma funcionalidade. Ficou um pouco nervosa procurando até que intuitivamente se dirigiu ao motorista.
_ Você pode parar nesse ponto pra mim?
_ Claro! Tenha um bom dia, garotinha tímida.
Ela estendeu o dinheiro contado da passagem para o homem, que olhou confuso para a sua mão. Acabou pegando aquilo e agradeceu a menina com um sorriso.

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